Pages

quinta-feira, 17 de junho de 2010

HOMEM DE FERRO 2 (2010)



O que transforma um reles filme em uma franquia multimilionária de sucesso, capaz de influenciar e interagir com a cultura pop mundial nas mais diversas mídias?
Seria uma necessidade de um contexto social, que é suprida por uma série de ideias e elementos presentes em uma determinada obra cinematográfica?
Ou talvez a capacidade de criar um universo tão interessante em suas regras particulares que provoca no espectador uma necessidade de acompanhar os personagens em novas jornadas nas telas?
Seja qual for a resposta, Jon Favreau deve saber.

Afinal, antes de 2008 o herói Iron Man era conhecido especialmente pelos fãs de quadrinhos, preso a um público segmentado e sem conseguir burlar as amarras do meio 2D em que foi criado.
Parecia difícil a transição para as telas, semelhante ao Hulk, ou conseguir tamanha identificação com o grande público do modo que o Homem Aranha foi capaz.
Porém, depois de 2008 isso mudou completamente.
Quase de maneira despretensiosa o filme de 2008 criou uma indescritível expectativa quanto à sequência, e o inusitado herói finalmente tornava-se unânime como uma das principais apostas de blockbuster da temporada.

Uma receita básica quando se fala em sequels, é que os filmes devem aumentar a escala, agregando novos elementos aos já existentes nos filmes anteriores. O diretor Jon Favreau com certeza conhece bem essa receita.
Por também possuir uma carreira na função de ator, o cineasta sabe muito bem que não são necessários meramente efeitos especiais para construir uma grande história. E às vezes nem mesmo uma grande história para criar um bom filme. Um personagem cativante já é o suficiente. Foi isso que aconteceu no primeiro longa-metragem, mas seria arriscado depender apenas disso uma segunda vez.
Sendo assim, qual a principal diferença entre Iron Man (2008) e Iron Man 2 (2010)?
A resposta é simples e complexa: roteiro.

Poucas vezes um blockbuster de ação soube aliar um timing tão apurado nos diálogos com um senso de humor igualmente eficaz. O elenco, em grande parte o mesmo do movie anterior, responde a isso de maneira positiva, interagindo em cenas repletas de improvisos milimetricamente conduzidos pelo diretor.
Ousado? Nem parece. 
Assistindo o filme, transparece o quanto os atores parecem confortáveis interpretando seus papéis, e é nesse ponto que Iron Man 2 constrói sua trama voltada aos personagens, de modo que sua interação desencadeie a sempre competente ação pirotécnica realizada pelo diretor Jon Favreau.

Com isso, mesmo que o trailer conte informação demais a respeito da estrutura narrativa utilizada, ainda restam muitas surpresas e inúmeras referências que farão a alegria dos fãs de HQs, que verão a gênese do supergrupo Vingadores desta vez inegável, e não apenas uma menção oculta nos créditos finais.
Muitos talvez questionem o relativamente curto tempo de explosões e pirotecnia apresentado, sem perceber que a fórmula de sucesso das melhores franquias de Hollywood reside exatamente na observância dos aspectos que ligam uma cena de ação a outra.
Essas lacunas são preenchidas com recursos que, se não são originais, conseguem funcionar devido à sintonia entre diretor e elenco, além do roteiro que valoriza os personagens, garantindo tempo de tela suficiente para que cada um seja marcante ao seu modo. É óbvio que alguns obtêm destaque, especialmente Downey Jr, Scarlett Johanson, Don Cheadle, e a atuação estarrecedora de Mickey Rourke, um vilão digno e convincente, cuja estruturação principia nos minutos iniciais do filme e se estende a cada sequência em que aparece roubando a cena, em contraponto ao outro arqui-rival do protagonista, que na interpretação de Sam Rockwell beira o caricato, e só não prejudica o andamento do filme por contracenar com atores que o deixam em segundo plano.

A eficácia da história é demonstrada ainda pela variedade de histórias paralelas bem contadas e coerentes entre si, que vão desde a motivação do vilão Ivan Vanko, à participação da S.H.I.E.L.D., a influência que a existência do Homem de Ferro desencadeia no cenário político mundial, até o viés de humor-dramático representado pelo ímpeto excêntrico e autodestrutivo de Tony Stark, reservando ainda uma surpreendente cena extra, que foi propositalmente deixada após todos os créditos por ser destinada exclusivamente aos conhecedores das histórias da Marvel Comics.

A escolha dessa e de outras referências aos quadrinhos impede que a totalidade dos espectadores capte todas as informações transmitidas, mas não diminui o divertimento que essa obra proporciona. Afinal, não se trata de uma tentativa de soar cult dizendo que o público não entendeu o que o filme quis dizer, e sim uma ferramenta para ganhar dinheiro, e não há nada de errado com isso desde que seja feito com a mínima integridade e respeitando a inteligência da plateia.        
Ainda assim, o ar de despretensão ainda permanece, como se o êxito fosse consequência de um mero brainstorm filmado, do qual muitas boas ideias ainda restam para um óbvio e aguardado próximo filme.



Tendo realizado um filme ação praticamente perfeito, Jon Favreau une-se a Sam Raimi, Brian Singer e Christopher Nolan, na lista dos melhores diretores de adaptações quadrinhísticas da última década, e deveria servir de referência para a maioria dos pseudodiretores de filmes de ação que ainda acreditam que a qualidade dos efeitos especiais pode compensar um roteiro comum e redundante.

Quanto vale: 1 ingresso e meio

Homem de Ferro 2
(Iron Man 2)
Direção: Jon Favreau
Duração: 124 minutos
Ano de produção: 2010
Gênero: Ação

3 comentários:

Fernando disse...

E ouvi muitas pessoas esperando que o filme fosse pancadaria do início até o final dos créditos.
Ainda bem que o referido diretor conseguiu equilibrar tudo sem exageros.

Guiga disse...

Excelente.

Marcel Ibaldo disse...

Eu achei que seria apenas um filme similar ao primeiro, mas foi realmente além das expectativas.
Valeu pelos comentários.