Pages

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

LANTERNA VERDE (2011)


O placar não deixa dúvidas.
Dificilmente a DC Comics conseguirá igualar o desempenho quase rotineiro da Marvel Comics no cinema.
E não apenas pela baixa quantidade de incursões na sétima arte, dos personagens do universo de Superman e Batman.

O problema é que existem coisas praticamente impossíveis em uma tradução literal para o cinema.
O que foi obtido com Spiderman, e especialmente com “X-Men: O Filme”, é o entendimento de que nas telonas não é esperto deixar um roteiro mal amarrado insistindo na desculpa de que “os quadrinhos são assim mesmo”.
Não sem motivo, o público afeito às produções cinematográficas de HQs não necessariamente iria gostar das edições mensalmente nas bancas.
“Um pouco mais de seriedade vai fazer diferença”, pensou Bryan Singer, e Christopher Nolan conferiu na prática o quanto o diretor dos dois primeiros capítulos da cinessérie mutante sabia do que estava falando.

Chegando em 2011, Batman é franquia estabelecida à espera do desfecho de sua trilogia, Superman prepara o seu re-retorno, Mulher Maravilha fracassou em sua tentativa de chegar às telas, Flash é um projeto em eterno planejamento, e o Lanterna Verde tem sua grande chance de virar máquina de fazer dinheiro em venda de bonecos e sequências intermináveis nos cinemas.
Na teoria, o personagem é um dos mais prováveis sucessos possíveis, afinal, é o tipo de cara propenso a falhas humanas que nem parece característico da editora a qual pertence, além, é claro, de permitir excessos de efeitos especiais perfeitamente justificados pelos super-poderes do herói.
Porém, o valor investido exigia garantia de lucro certo.
E é aí que mora o perigo.

Provavelmente ninguém pediu nada muito artístico ao diretor Martin Campbell.
“Apenas faz a gurizada querer olhar várias vezes, e lembra que se a criançada curtir vai encher a paciência dos pais pra ver de novo”.
Campbell decidiu fazer exatamente isso, meio que ignorando tudo que havia sido aprendido a respeito de adaptações de HQs para as telonas.
Tivesse ele acompanhado a evolução das coisas teria percebido que o primeiro público a agradar é a cada vez mais exigente população de fãs de quadrinhos.

Sendo assim, as imagens de divulgação precisam ser convincentes o bastante pra que o sucesso de bilheteria não acabe se tornando um sucesso de downloads, reduzindo assim os espectadores pagantes de ingressos, e consequentemente, as chances de uma sequência.
O que vinha sendo divulgado era de gosto questionável, começando pela escolha do ator, Ryan Reynolds, não vinculado costumeiramente a filmes diferentes de comédias acéfalas ou melosas (com raras exceções).

O começo didático do filme visa resumir a parte complicada do pacote, que envolve a cronologia construída durante décadas de existência dos personagens, selecionando os momentos que favorecerão o entendimento do grande público a respeito dessa nova mitologia que será apresentada.
Tal desenrolar não chega a ser prejudicial, mesmo que não seja necessariamente algo envolvente.
A alternativa do cineasta é claramente voltada a pular essa etapa indo pro que realmente interessa: o desenvolvimento da estrutura psicológica do herói...
Ou não?

O que em um filme de Sam Raimi poderia ser extensa e corretamente dedicado a tornar a figura sem poderes que usará a máscara de defensor da justiça alguém por quem a plateia terá empatia, nas mãos de Martin Campbell segue outro caminho.
Afinal, pra que complicar, tendo em vista que o público-médio paga o ingresso para ver os efeitos e esquecer de tudo quando a sessão acabar?
Sendo assim, Hal Jordan, o humano que carregará a arma mais poderosa do universo é um cara qualquer, com um drama mostrado de maneira comum, com interesses tão banais que nem de perto parece ser aquele que um dia será chamado de “o maior Lanterna Verde do universo”.
  

O distanciamento é tamanho que o mais fácil é reconhecer no papel interpretado por Ryan Reynolds outro dos Lanternas Verdes nos quadrinhos, que atende pelo nome Kyle Rayner.
Porém, o mais adequado é perceber que no filme convencional de Martin Campbell, Hal Jordan é só outro protagonista clichê com a personalidade trivial de sujeito disposto a quebrar regras, com um trauma no passado, um interesse romântico insosso, e um amigo na função de pretenso alívio cômico.
Naturalmente, não fosse a aguardada adaptação do herói da DC Comics, essa sinopse não valeria nem o trajeto até o cinema.

Evidentemente que, mesmo em se tratando de um importante personagem que nem esse, desperdiçar essa primeira parte é jogar fora a chance de torná-lo um novo clássico nerd.
Ainda assim, o propósito do estúdio busca outro resultado, muito mais interessado em entretenimento fácil voltado a todas as idades.
Desse modo, pouco importa se os coadjuvantes seriam um fator importante, ou se o vilão da história poderia ser melhor utilizado em prol da trama.

Então, mesmo que no cartaz do filme estejam em destaque Kilowog (dublado por Michael Duncan Clarke) e Tomar Re (dublado por Geoffrey Rush), não se iluda. Eles serão pouco mais do que figurantes, ainda que os ínfimos minutos de Kilowog treinando Hal Jordan sejam alguns raros momentos em que seja possível vislumbrar uma fração das possibilidades que os guardiões disponibilizam aos seus escolhidos para patrulhar o universo.
Outro coadjuvante apresentado de maneira pouco relevante é o futuro nêmesis Sinestro (Mark Strong), que se não fosse pela falta de percepção de Campbell teria roubado a cena semelhante ao que Tom Hiddleston conseguiu no filme Thor.


Também merece uma comparação a maneira como foi retratado o planeta OA, cuja concepção visual é correta, ainda que o vislumbre rápido não seja algo digno o suficiente de sua magnitude.
Tivesse o diretor destinado (muito) mais tempo a esse segmento de seu filme (semelhante ao que Kenneth Brannagh fez ao mostrar Asgard, em Thor) teria resultado em algo bem mais interessante.


Fora isso, o grande vilão do longa-metragem, a representação do medo encarnado denominado Parallax, lembra outro equívoco cósmico em um filme de HQs: Galactus.
Se em Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007), o Devorador de Mundos fica restrito a uma porcaria disforme nem um pouco ameaçadora que tem a mesma serventia de uma bomba nuclear em um filme de Steven Seagal, nada muito diferente ocorre em Lanterna Verde.
Aliás, a presença de Parallax no final do filme para o decepcionante combate épico repleto de ideias medíocres e idiotas, aliadas a efeitos especiais comuns, apenas concretiza sua participação na forma de uma careta gigante em meio a uma nuvem digital, cuja principal característica é ser um vilão burro e quase capanguesco, além de facilmente enganável.

E isso sem falar na performance caricata e desnecessária de Peter Sarsgaard, que é a representação máxima da inutilidade ao interpretar o pseudo-vilão Hector Hammond (filho do personagem de Tim Robbins, também desperdiçado no filme),  que, além de auxiliar o roteiro a ficar mais perdido entre vários personagens, tira tempo imprescindível para que algum outro aspecto realmente relevante do roteiro fosse devidamente explorado.

E quem esperava que ao menos a aparentemente impossível de não ser divertida utilização dos construtos de luz esmeralda fosse o suficiente para que este pudesse tornar-se um bom blockbuster descartável para assistir ignorando o desleixo pelo seu roteiro, terá que se contentar com sequências que transitam entre o redundante e o patético, sempre jogando fora as oportunidades de realizar o que outros diretores de filmes HQs já conseguiram com muito menos dinheiro sendo investido.
Ao invés de ter ideias, Campbell preferiu ser engraçadinho, mesmo que nenhuma piada tenha graça, e que ao invés de conduzir gargalhadas na plateia ele apenas provoque bocejos, constrangimento, e olhadas contínuas ao relógio.


Ainda que eu prefira procurar alguma qualidade, efeito especial, piada, ou mísero momento de entretenimento em meio à capenga e entediante trajetória do herói, a metragem prossegue impiedosa, alheia ao péssimo momento da carreira de Martin Campbell, e ao azar de (quase) sempre que persegue as escolhas do ator que protagoniza este seu último trabalho.
No fim das contas, Lanterna Verde nada mais é do que um típico filme-família pré-adolescente de Ryan Reynolds, porém com o uso de muitos efeitos CG, que estranhamente o tornam mais ridículo ainda.
Sem nenhum ponto positivo, é um lembrete de que nem todo filme de HQs será bom simplesmente por ser a releitura de algum ícone das páginas em requadros, e que um clássico da nona arte pode tranquilamente transformar-se em um vergonhoso fracasso a servir de referencial de ruindade toda vez que o assunto for “as piores adaptações já realizadas”.   

Curiosamente, a melhor coisa no longa-metragem é a cena pós-créditos, que funciona ao conduzir as esperanças do espectador para um novo capítulo da franquia.
Lamentavelmente, quando ela chega já é tarde demais.
Aguentar até o fim da sessão já é esperar muito de qualquer um.
Melhor seria fingir que esse trash acidental nunca aconteceu, e abandoná-lo no esquecimento que é o único lugar em que merece estar.


Quanto vale: Nem meio ingresso.


E pra conhecer mais das HQs do Lanterna Verde (que eu garanto são muito melhores do que foi mostrado no filme) CLIQUE AQUI.

Lanterna Verde
(Green Lantern)
Direção: Martin Campbell
Duração: 114 minutos
Ano de produção: 2011
Gênero: Ação / Aventura

7 comentários:

Fernando disse...

Concordo com tudo, esse Lanterna Verde só é recomendável para aqueles que sofrem de insônia, pois nem os efeitos especiais me chamaram atenção.

Em tempo, a DC Comics lançou recentemente um desenho animado chamado Green Lantrn: Emerald Knights. A referida animação, ao contrário dessa tralha protagonizada pelo Ryan Reynolds, explora de forma mais criativa e menos preguiçosa a rica mitologia do Lanterna Verde.

Marcel Jacques disse...

"uma porcaria disforme"...uahuahuah.
Era um sorete!

Marcel Ibaldo disse...

Sobraram adjetivos pejorativos nessa crítica de cinema.
Porém, sorete é um que não teve a felicidade de servir à análise cinematográfica.
Bem lembrado, Jacques!

E quanto à animação que tu mencionou, Fernando, considerando o histórico de excelentes produções nesse segmento oriundas da DC Comics, não duvido que esse Emerald Knights possa servir para forçar (ou tentar) o esquecimento dessa presepada nefasta e ofensivamente contrária à diversão da plateia, engendrada por Martin Campbell.

Guilherme Hollweg disse...

Um ataque massivo a filosofia dos Lanternas Verdes.
Em um filme onde nem o "Hector Bonilha" estava apresentando uma boa atuação, é sinal de degringolagem total de qualidade.
E é isso que temos no longa, começa mal, passa por péssimos bocados e termina de uma forma inescrupulosamente ridícula.
Como comentei na videocrítica, é difícil entender o que o pessoal da DC tem na cabeça...
De qualquer modo, lamentemos.

Guilherme Hollweg disse...

Quer saber, se tratando de um longa como esse, poupem-se as palavras bonitas.
Ele não passa de um infindável, sujo e fedorento soretão.
E o Martin Campbell que vá para a casa dele chupar uma bosta!

Marcel Ibaldo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcel Ibaldo disse...

Parabéns, Guiga.
Jamais este blog havia contado com comentários com essa magnitude de pragmatismo.

Agradeço.