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quinta-feira, 17 de maio de 2012

OS VINGADORES (2012)




Nos quadrinhos é assim.
Aparecem os heróis, vilões, e logo tem alguma saga envolvendo a possível destruição do planeta a ser evitada pelos vigilantes super-poderosos.
No cinema as coisas não funcionam bem desse jeito.


Na sétima arte, apesar de vários bons resultados obtidos, fazer um grande filme de HQs não é essa matemática de blockbuster que sempre fatura porque é voltado ao público-alvo tal, ou porque é da franquia não sei o que.
Foi pouco mais de uma década de adaptação e aprendizado por meio de altos e baixos desde “Blade: O Caçador de Vampiros” (1998), “X-Men: O Filme” (2000), e “Homem-Aranha” (2002).
Tem gente que faturou muito, uns que decidiram ser sombrios, ou fiéis às cores das HQs, outros experimentais, e outros simplesmente quebraram a cara.
Enquanto isso, tinha quem estivesse observando, tirando lições disso tudo, pra que um dia planos maiores pudessem ser postos em prática.


Quando o primeiro filme do Homem de Ferro foi filmado, e o Marvel Studios via sua gênese, os nerds ainda viam com expectativa somada a desconfiança as tentativas e anúncios de planos futuros que se seguiam.
Porém, com o passar do tempo, as coisas começavam a se alinhar, a fazer sentido.
Não era apenas o lucro imediato o objetivo. O mundo da Casa das Ideias nas páginas parecia migrar competentemente para o cinema, e quando enfim a trinca heróica dos Vingadores teve suas respectivas datas de estreia anunciadas, era um caminho sem volta.
E depois disso?


De boato em boato, contratações, trailers, e no meio disso tudo o mesmo Joss Whedon que nunca havia dirigido um sucesso de bilheteria, e apesar de sua carreira de êxito nos quadrinhos e na televisão, estava longe de ser garantia de um bom filme.
E esse não poderia ser qualquer filme.
O começo da produção, no entanto não é ruim. Longe disso.
Agora épico? Faltava bastante.
Por algum tempo o que o mantém nos trilhos é a existência dos cinco filmes anteriores que pavimentaram o caminho até este, a saber: Homem de Ferro (2008)O Incrível Hulk (2008), Homem de Ferro 2 (2010) , Thor (2011), e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011).


O fato de conhecermos os personagens facilita na apresentação dos mesmos, que apesar de rápida, ainda assim funciona, afinal, todos estão bastante confortáveis em suas interpretações.
O que ainda está ausente nesse momento é amarrar devidamente as sequências de ação, as boas falas trocadas nos diálogos, e especialmente demonstrar que esta ameaça do vilão Loki (Tom Hiddleston) pode ser mais efetiva do que qualquer outro plano de dominação do mundo que os próprios quadrinhos e cinema fizeram o favor de demonstrar que são falastrice de inimigo presunçoso.
Isso enfim muda quando os personagens param de estar em cena cada um como se estivesse em uma parte de seu filme-solo, e a Iniciativa Vingadores torna-se o elemento principal, trazendo em consequência a incapacidade dos guerreiros, e não necessariamente heróis, em trabalhar em equipe.


É então que o filme ganha ritmo, e sua narrativa faz com que as mais de duas horas pareçam passar de modo não rápido, e sim da maneira ideal para um blockbuster que, além da pirotecnia tem que conseguir o fundamental envolvimento da plateia com o elenco.


E enquanto a trama segue seu curso, a equipe até então equivocadamente reunida troca bravatas, criando momentos de humor impecável, utilizando as extremamente diferentes personalidades em prol da estruturação do que é base do roteiro.
Facilmente é possível ver que Whedon entendeu que um filme de equipe não precisa simplesmente de cenas de ação em tempo igual para todos os envolvidos.
O que faz diferença é entender porque todos estão dispostos ao sacrifício, e se o propósito deles ainda não é esse, é porque o andamento do filme ainda tem algo a lhes ensinar.

A essa altura do campeonato, já foi visto porque eles são a equipe definitiva diante da ofensiva que o vilão está engendrando, e o quão poderosos eles são, porém cada conversa entre os integrantes do grupo não ressalta nada além de que eles são fracos.
Isso se deve principalmente ao desenvolvimento que o roteiro permite a cada um deles, seja o Capitão América (Chris Evans) em busca de adaptação a esse novo mundo que respira novas tecnologias, mas ainda vive as mesmas velhas guerras, ainda que com novos inimigos, ou o Tony Stark (Robert Downey Jr.) sempre afundado na própria arrogância e utilizando a mesma como forma de negar o fato de que ainda terá um caminho a trilhar antes de ser o herói que o mundo precisa.

Mas resumir-se a isso seria um despropósito, quando ainda há o asgardiano Thor (Chris Hemsworth) procurando a nobreza no conflito, e tentando trazer para si a responsabilidade pelos atos de seu irmão, e isso sem falar no Doutor Bruce Banner (em eficiente atuação de Mark Ruffalo), que não tem medo maior de nada além do que ele mesmo pode fazer se permitir a si mesmo perder o controle.


E o resto são coadjuvantes, é isso?
Para o diretor Joss Whedon, eles podem ser mais do que isso, e o Nick Fury interpretado por Samuel L. Jackson encontra finalmente seu destaque frente a esses novos ícones cinematográficos, ao lado da Viúva Negra (Scarllet Johanson) e do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), e certamente do que é o mais inesperado personagem essencial do filme: o agente Phil Coulson (Clark Gregg) aproveitando muito bem cada minuto em cena e garantindo assim o seu espaço na memória do público ao fim da sessão.


Para o espectador está ótimo. As piadas prosseguem sempre extraordinárias, e é difícil saber para quem torcer nas discussões intermináveis.
Para a humanidade, no entanto, a situação não está nada bem.
Afinal, o que seria melhor para Loki, conhecido por seus estratagemas visando discordia do que um bando de brutamontes e uma bela mulher brigando entre si? O irmão de Thor conta com isso, e a insanidade do pretenso déspota fica evidenciada em cada close no rosto de Hiddleston.
Graças a esse desacerto providencialmente criado, Whedon aproveita para elaborar excelentes sequências de ação, com perfeitos efeitos especiais, que não são mais do que uma enganação, pois isso não é nem um décimo do que ele preparou para o grand finale.


E quando as peças estão todas na mesa, e cada uma delas entendeu que a situação exige mais do que heroísmo individualista, enfim percebe-se que o Marvel Studios fez tudo certo, e os próximos minutos serão a consagração de um trabalho primoroso encerrando a primeira hexalogia dos quadrinhos no cinema.
E se a cartilha de conceder o espaço adequado para cada um já estava sendo seguida a risca, é nessa etapa final que ela funciona em perfeita sincronia com o que deve ser um filme com tantos personagens.
A ação não pode ter outro adjetivo que não seja épico.


A ameaça cósmica surge de maneira tão visceral que faria Martin Campbell lamentar o momento em que assinou contrato para criar de maneira tão risível a aparição de Parallax no longa-metragem “Lanterna Verde (2011).
E sempre quando parece que já vimos a melhor cena pirotécnica possível, é porque ainda não estamos dando o crédito que merece o talento de Joss Whedon, que põe no chinelo qualquer delírio repetitivo de Michael Bay na direção de seus filmes.
Isso pois, após nos convencer que o universo fantástico da Marvel Comics era plausível, ele sabe exatamente o que deve fazer a seguir.

De planos-sequência desconcertantes, a batalhas virtualmente perdidas nas ruas da cidade das quais os Vingadores não hesitam em tomar parte, até a formação da mais poderosa equipe de super-heróis que o cinema já viu, o filme consegue atender completamente o que se esperou dele por décadas, quando por muito tempo foi sabiamente prolongada a espera por esse filme-evento.



Até porque, não seria Ang Lee (no filme de 2003) ou Louis Leterrier (em 2008) quem conseguiria tornar o Hulk em quem ele deveria ser em sua migração para a sétima arte.
Quem achou que seria o Homem de Ferro quem roubaria a cena nem fazia ideia de que pela primeira vez o gigante verde estaria apto para ser a criatura voltada à simples e pura destruição que ele é.
E diante do perigo de proporção cataclísmica invocado por Loki, há espaço de sobra para que o lado sombrio de Bruce Banner possa esmagar sem preocupação alguma, trazendo este último toque de fidelidade que apenas torna o trabalho de Whedon uma obra ainda mais emblemática.


O que o Mavel Studios, Joss Whedon, e todo o elenco e equipe envolvidos em Os Vingadores fizeram foi estabelecer um momento histórico o qual nenhum nerd pode ignorar, afinal, essa é a transição máxima que por tanto tempo foi temida por estúdios e produtores, que imaginavam que o público não estaria pronto para aceitar os aspectos que os fãs de quadrinhos durantes décadas se acostumaram a apreciar.



Eles estavam enganados, é lógico.
Bastava que houvesse o devido interesse e disposição em fazer o melhor trabalho possível, respeitando tanto os fãs (a cena pós-créditos que o diga) quanto os não-iniciados na nona arte, sabendo que o sucesso comercial viria em consequência de uma obra realizada com esmero e que visava não menos do que a maestria enquanto resultado final.


Diferente do estilo policial sombrio de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), do sci-fi buscando realidade e crítica social na franquia “X-Men”, ou do experimentalismo mimetizando as páginas das HQs do primeiro filme do “Hulk”, “Os Vingadores” segue a fórmula escolhida e implementada pelo Marvel Studios desde o filme “Homem de Ferro”, com a exaltação da linguagem dos quadrinhos em sua essência, aceitando as cores e os mundos fantásticos em que pode ser transmutado o mundo real por meio da imaginação dos autores nas histórias que flertam com o absurdo e a fantasia em seus roteiros, assemelhando-se assim ao que “Superman – O Filme” (1978) e a franquia “Homem-Aranha” tão bem souberam retratar.


Talvez o motivo pelo qual um filme da Liga da Justiça nunca tenha chegado perto de existir de maneira competente, é o fato de que diferente dos personagens Marvel, na DC Comics existe o mais poderoso super-herói, o maior detetive, o herói mais rápido da Terra, enquanto na editora rival eles são poderosos, mas apenas se tornam os mais poderosos quando não agem individualmente, e isso exige aprendizado.
Parafraseando as palavras de Tony Stark, os Vingadores são verdadeiramente a equipe de super-heróis mais poderosos da Terra, e se o filme não deixou isso claro, é melhor assistir de novo, o que com certeza vai ser outro ingresso e meio bem investido.


Quanto vale: Um Ingresso e meio com louvor.
Os Vingadores
(The Avengers)
Direção: Joss Whedon
Duração: 143 minutos
Ano de produção: 2012
Gênero: Aventura/Ação

4 comentários:

Fernando disse...

Concordo com tudo. "Vingadores" é soberbo. Filme bem dirigido e roteiro bem amarrado.

Marcel Ibaldo disse...

Legal que os temores dos nerds foram devidamente analisados pra que o filme não caísse nos erros comuns em filmes de HQs.
Esse Joss Whedon entende de quadrinhos e não ficou satisfeito até criar um filme que agradasse antes de tudo ele mesmo, enquanto fã.
Tendo feito isso, a bilheteria seria consequência do fato de que os outros fãs de HQs, e de cinema de entretenimento poderiam ter a certeza de assistir um filme divertido, e que não se escora em soluções medíocres no marketing pra garantir pagar as contas.

Difícil imaginar o que isso vai provocar no planejamento de futuras produções, mas com certeza vai ser legal ver a indústria tentar se adaptar e aprender que não é só o filme ser sombrio, ou ter muito CG, etc.
Ser fiel, com visual colorido e mirabolante também é elemento útil.
Mais do que nunca, aguardemos.

Francine disse...

Gente eu adorei esse filme! Porém acho que o roteiro apresenta um furo Esse furo no roteiro não chega a ser uma enorme cratera, por isso, pelo menos para mim, não diminuiu em nada a qualidade do filme.

Reparem que o problema do Dr. Bruce Banner é se tornar um monstro descontrolado (tanto que ele persegue a Viúva Negra em uma cena eletrizante). Porém no final ele parece estar "domesticado", acatando ordens e agindo de forma racional (para os padrões do Hulk é claro).

Apesar desse pequeno deslize, Vingadores conseguiu unir ação e uma boa narrativa, coisa que O Quarteto Fantástico, por exemplo, nem chegou perto.

Enfim... Vingadores é muito bom!

Adorei esse blogue.

Marcel Ibaldo disse...

Pois é...
Essa sequência do filme gerou discussões e teorias a respeito do motivo pelo qual ocorreu dessa forma.
Porém, acontece que no longa-metragem "O Incrível Hulk", é mostrado que Bruce Banner já começa a ter um pouco mais de controle sobre o Hulk. Pouco, eu repito.
No filme, no entanto, alguns fatores favoreceram a tal fúria incontrolável do personagem na cena mencionada acima.

SPOILERS ABAIXO









Primeiro fator de piração do Hulk: A vaga lembrança do monstro verde, é que foi a Viúva Negra que convenceu o Dr. Banner a ir até lá, e quando ele enfim desperta, está preso em uma jaula de metal (o porta-aviões da Shield). Então, nada mais natural que concentrar a raiva dele na moça.

Segundo fator de piração do Hulk: A influência do vilão Loki a qual ocorreu mediante contato com o cetro que ele utiliza para vira-casacar o Gavião Arqueiro. Banner, tendo entrado em contato com ele, passa a estar sob influência do mesmo, até que se liberta do efeito, e passa a exercer maior controle sobre o Hulk.

Creio que esses motivos bastam pra justificar a cena.
E Francine, sinta-se convidada a visitar o blog, que em breve tem novidades por aqui.
Valeu.