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quinta-feira, 5 de julho de 2012

HOMEM-ARANHA 2 (2004)


Em um momento no qual vimos a primeira hexalogia das HQs na sétima arte completada em “Os Vingadores”, o recomeço de uma franquia de sucesso em “X-Men: Primeira Classe” (2011), a trilogia Batman próxima de seu desfecho, além dos reboots, sejam o vindouro “Superman: Homem de Aço” (2013) por Zack Snyder ou até a possibilidade de reinício do Lanterna Verde de 2011, parece estranho mencionar uma época em que a incerteza ainda reinava para as adaptações quadrinhísticas rumo à telona e qualquer nova tentativa era mais passível de receber um não do que qualquer outra coisa.
Mas lá em 2004, a situação recém começava a mudar.


O "Homem-Aranha 2" viria após "Blade 2" (2002), e "X-Men 2" (2003), e especialmente após o estrondoso sucesso do primeiro Homem-Aranha (2002).
Agora, mais do que incerteza, a palavra que rodeava a produção era expectativa.
Sam Raimi estaria de volta, além da trinca fundamental do elenco: Tobey Maguire (Peter Parker), Kirsten Dunst (Mary Jane Watson), e James Franco (Harry Osborn).
E conforme ensina a cartilha da franchise milionária, um segundo filme precisa aumentar a escala.

Um novo vilão, então?
Claro. E a escolha do ator Alfred Molina para interpretar o Doutor Otto Octavius foi realmente um acerto notável.
No entanto, por mais que o maior orçamento traga consigo maior liberdade para criar um espetáculo visual muito superior ao longa-metragem predecessor, é importante lembrar que também existem muitas cenas em que o protagonista nerd azarado deve lidar com os problemas da sua vida comum, sem máscaras ou super-poderes.
Se isso não for interessante e não agregar novos elementos ao desenvolvimento do personagem e a seu universo, a probabilidade maior é de quebrar alguns recordes na semana de estreia, comercialmente falando, tendo em seguida uma queda precipício abaixo na semana a seguir.
E ninguém queria isso, nem produtores, nem elenco, e muito menos Sam Raimi.
O dilema que se instaurava era: o que, além de um cientista maluco possuidor de quatro tentáculos mecânicos, o herói precisa enfrentar dessa vez?
Resposta: a própria motivação de ser um herói.


Simples? Aparentemente. Mas não distante de alguma complicação caso lembremos que o próprio Super-Homem teve seu filme de "opto por não ter mais super-poderes e levar uma vida comum juntamente com as pessoas que amo", que apesar de não ser inteiramente questão de diretor, acabou resultando em uma produção que, se não chegou nem perto de ser um grande filme, ao menos elevou ainda mais a exaltação quanto ao primeiro "Superman", de 1978, devido à comparação com um segundo filme medíocre.
Raimi teria uma estrategia para um resultado melhor do que o obtido por Donner/Lester em 1982?

O fato é que em "Homem-Aranha 2" o próprio Parker é diferente, ou melhor, vê as coisas de maneira diferente, ainda que se engane quem pensa que o heroi aracnídeo que ele é entre uma aula da faculdade e outra tenha mudado na mesma medida.
O Homem-Aranha vai até muito bem, obrigado, mas isso não ia ser a grande sacada do roteiro, com certeza, e sim qual rumo o seu alter-ego decidiria trilhar.
O caminho de poder e responsabilidade exigia sacrifícios que iam além do que se pensa lendo HQs e sonhando em ser o destaque das manchetes dos jornais.
Assim, o enredo da sequencia versa a respeito de escolhas, somando os resultados destas à confirmação da figura do herói enquanto ser falível e por isso tão facilmente identificável com a plateia que o assiste na sessão.
O diretor conduz com precisão as tragedias que envolvem seu protagonista em razões para questionar o quanto ele necessita realmente prosseguir lutando por um motivo que ele mesmo desconhece.

Nesse contexto, a maneira bem-humorada com que o cineasta conta a historia não diminui sua dramaticidade, e nessa pequena fábula cheia de pequenas lições de moral, o objetivo final consegue novamente ser alcançado se esquivando da rotulação na categoria de filme piegas para olhar resmungando.
Talvez porque dessa vez a vida de Parker não tem piorado por puro azar, e sim por consequência, seja nos problemas envolvendo sua tia May (Rosemary Harris), ou o vingativo amigo Harry Osborn, e é claro, a distância crescente no que diz respeito a Mary Jane.
Afinal, o roteiro o fará, mais do que aceitar a responsabilidade, ter que lidar com a culpa por seus atos, apresentando um entendimento pouco comum em produções do gênero, de que após o salvamento ainda há sempre alguém que acaba de algum modo ferido.


E pra completar o espetáculo, o inimigo a catalisar o bom investimento dos 200 milhões de dólares de orçamento faz sua parte.

Além de uma atuação e caracterização convincentes, Alfred Molina conta com a criatividade do diretor para que o Doutor Octopus por ele interpretado seja o pior adversário que o herói lançador de teias já enfrentou no cinema.
Em especial na sequencia épica levando a uma conclusão no embate em um trem elevado, Sam Raimi realiza um trabalho próximo da perfeição enquanto os efeitos especiais traduzem a inventividade que ele já havia demonstrado nos Evil Deads e em Army Of Darkness, ainda que naqueles tempos com muito mais massa de modelar e caretas de Bruce Campbell fazendo o trabalho pesado.
Porém, verdade seja dita, a aura trash ainda está presente, e o massacre protagonizado por Octopus no hospital é a melhor forma de exemplificar isso.

A trama bem amarrada funciona de tal forma que nem mesmo a sensação anti-climática deixada pelas pontas providencialmente soltas ao fim da sessão possam soar algo forçado meramente para a manutenção da franquia. 

É apenas parte do que é uma boa série em quadrinhos, com a saga esperando a próxima edição.
Os personagens tomam atitudes e pagam o preço por elas, de modo que o fim do filme não é apenas o retorno ao ponto inicial depois de derrotar o vilão da ocasião.
E é claro, o andar do longa-metragem deixa evidente o fortalecimento da personalidade de Harry Osborn, personagem cada vez mais importante para o enredo, e que demonstra que não há peça desprovida de função no aparentemente inofensivo longa-metragem para toda família dirigido por Raimi.

Por muito tempo cineastas receberiam a missão de repetir o sucesso de bilheteria e de crítica obtido neste segundo filme do escalador de paredes da Marvel Comics.
Seria necessário, quatro anos depois, a própria Marvel assumir a dianteira das adaptações de seus personagens para enfim começar a compreender a partir de “Homem de Ferro” (2008) o que Sam Raimi havia feito e que oportunizou a visibilidade que o cinema de HQs necessitava para tornar-se mais do que somente uma fonte de lucro potencial. 
Aos olhos de estúdios e do público as páginas dos quadrinhos passariam a representar uma fonte infindável de historias que, nas mãos das pessoas certas poderiam render produções detentoras de mais a dizer do que apenas explosões e diversão momentânea.
O melhor filme do personagem havia dado seu recado, e tanto a sétima quanto a nona arte deixariam de ser as mesmas a partir de então.


Quanto vale: Um Ingresso e meio.

Homem-Aranha 2
(Spider-man 2)
Direção: Sam Raimi
Duração: 128 minutos
Ano de produção: 2004
Gênero: Aventura/Ação



6 comentários:

Fernando Rodrigues disse...

Não sou clarividente, mas creio que em um futuro não muito distante, quando a raça humana fizer uma crítica mais distanciada acerca da cultura pop, será aferido que esse Spider Man 2 é um dos filmes mais divertidos do início do século.

Francine disse...

Eu adoro esse filme. Sem dúvida é um dos melhores filmes de super-herói já feito.

Aliás, já que o assunto é super-heróis, eu considero o filme solo do Thor excelente, mas a crítica em geral considera de razoável para baixo. O que vocês acham desse filme?

Bjosss!!!

Marcel Ibaldo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcel Ibaldo disse...

Acho que algum reconhecimento ao Homem-Aranha 2 pode estar próximo, caso o hovo filme não atenda Às expectativas.
Mas espero que o Marc Webb consiga surpreender.
Aguardemos.

Quanto ao Thor, considero ele o mais difícil filme da Marvel já realizado até o momento. Mais até do que Os Vingadores.
E isso porque o filme do filho de Odin teria que contar praticamente duas origens, sendo que uma só já é motivo pra complicar a vida de muito diretor. Além disso, é claro, há o fato de ele ser o detalhe fundamental para a plena aceitação de aspectos fantásticos que vão além da questão científica a qual envolve os outros herois que migraram para o cinema até agora.
No fim das contas, o longa-metragem foi feito de maneira competente, e se em alguns pontos perde o ritmo, é algo totalmente justificável, e que não diminui o bom resultado que é a produção.

De minha opinião, é um bom filme de herois.
De qualquer modo, a crítica completa está aqui:
http://ibaldomarcel.blogspot.com.br/2011/05/thor-2011.html

Valeu pelos comentários.

Francine disse...

Li que a crítica que tu fizeste ao Thor e concordo contigo. Aliás, eu considero esse um dos melhores filmes de heróis da Marvel "em carreira solo". Pelo que eu vi o roteiro conseguiu mostrar a evolução de um personagem que antes era egoísta e depois se transformou em um cara digno de portar o tal do Mjolnir.

O roteiro também soube desenvolver o vilão mais até do que o do filme do Capitão América. Tanto que as intrigas do Loki são essenciais para mostrar ao Thor a força que ele possui.

Eu ainda não vi o novo spider Man, mas sei lá, acho que tem tudo para ser mais um bom filme.

Bjossss a todos!!!

Marcel Ibaldo disse...

No filme Thor estava algo essencial para Os Vingadores ter enfim o caminho pavimentado pra acontecer, e o diretor felizmente soube construir isso pro épico da Marvel.

Quanto ao Espetacular Homem-Aranha, o texto está pronto, e falaremos a respeito esta semana.

Valeu pelos comentários.