Pages

sábado, 8 de setembro de 2012

SUPERMAN: O FILME (1978)



Já faz um bom tempo que as adaptações de HQs pro cinema tornaram-se algo corriqueiro.
Muitas vezes na divulgação nem é inserida a informação “Baseada na História em Quadrinhos...”.

Com o tempo, essas produções deixaram de ser somente um subgênero cinematográfico, passando a ser reconhecidas muitas vezes simplesmente na condição de transposições para a telona de obras elaboradas inicialmente para outra mídia.
Mas essa realidade de aceitação plena das HQs servindo de base para os roteiros é algo característico do período pós-retomada dos quadrinhos no cinema.
Antes as coisas eram bem mais complicadas, e o filme em questão é um exemplo disso.



As dificuldades eram muitas, tendo em vista a própria incerteza de sucesso em uma obra com os elementos quadrinhísticos que alguém ousasse transportar para a película.
Some-se a isso a própria carência de resultados funcionais que demonstrassem a receita de uma adaptação bem sucedida.
A certa altura do campeonato, poucos haviam conseguido superar a barreira de preconceito da plateia, mantendo ainda assim a fidelidade com o material original e os elementos por vezes espalhafatosos do visual presente nas páginas.
O Superman não seria exceção, e o cineasta que tivesse a incumbência de filmá-lo deveria pensar em formas de manter a integridade do que havia sido construído nas décadas de publicações estreladas por ele, sem que os seus aspectos menos verossímeis afastassem o público.

O diretor Richard Donner tinha um desafio com grande potencial para o fracasso, mas ele contava com algumas cartas na manga para tentar evitar que isso ocorresse.
Desde a trilha sonora épica de John Williams, marcante desde a memorável sequencia inicial, até a escolha do elenco, ele optou por uma estrutura consistente, tendo em Marlon Brando (Jor-El) e Gene Hackman (Lex Luthor) os seus nomes mais famosos.
Porém, logicamente, um grande peso recairia sobre atuação do então desconhecido que seria Kal-El, em sua jornada visando inspirar a humanidade conforme as palavras que norteariam seu caminho.



A carreira de seu protagonista seria marcada até o fim da vida pelo ícone do personagem que interpretou. Christopher Reeve encontrava na criação de Jerry Siegel e Joe Schuster o seu trabalho mais importante, e não hesitou em entregar uma atuação confiante e carismática.  
Tanto Clark Kent quanto o herói do qual ele era o alter-ego possuem a mesma intensidade dramática sendo inegavelmente críveis no universo arquitetado por Richard Donner.

E isso se sobressai especialmente quando vemos no Lex Luthor de Gene Hackman um vilão muito caricatural, em contraponto com o herói que o mantém sempre na condição de coadjuvante bem menos expressivo do que o esperado. Com certeza o arquiinimigo trazia o tal alívio cômico costumeiramente exigido pelos produtores, mas o tom exagerado impede que ele consiga equiparar-se ao que a trama consolidou na figura do personagem interpretado por Christopher Reeve.
Além disso, outro elemento exigido na cartilha do blockbuster milionário, o interesse romântico funciona bem com a Lois Lane interpretada por Margot Kidder desestabilizando o heroi/repórter, em cenas de diálogos singelos e nem por isso menos envolventes.



E sendo que o principal obstáculo era fazer o espectador comprar a ideia para que o filme pudesse ser um êxito, havia algo que não poderia passar despercebido.

"Você vai acreditar que o homem pode voar.", disseram eles, e isso não era pouca responsabilidade.
No entanto, os efeitos especiais foram criados por John Barry com tamanha maestria que fizeram jus ao marketing a princípio exagerado voltado a enaltecer a produção. 
E assim, a confluência desses fatores já era o bastante para tornar o longa-metragem  mais do que interessante para ser assistido.



Porém, um clássico não surge com apenas isso.
O drama humano é contado no roteiro do filme de uma maneira que eu particularmente nunca vi em uma das histórias do herói que eu li nas HQs.
A frequentemente enfadonha postura de herói incorruptível, tão mal-contada nos quadrinhos, é apresentada com tanta dignidade que deixa de ser algo piegas, funcionando perfeitamente nessa fábula heroística a qual define o padrão do defensor da justiça exemplar, apresentado de maneira tão pouco convincente nos dias de hoje, mas que volta e meia ressurge refletindo os anseios da população que, nos mais diversos períodos históricos tem que lidar com governantes pouco preocupados com os problemas sociais, e mais voltados aos lucros obtidos com alguma nova guerra cuidadosamente iniciada para tal fim.
E diante disso, é impossível ignorar a influência de um personagem que veste as cores da bandeira americana, é übervalorizado pela mídia, e que é dono de afirmações como: “Vim lutar pela verdade, justiça, e pelo ideal americano.”



Em épocas de governo estadunidense frequentemente envolvido em escândalos que lhe atribuem cada vez mais descrédito frente à opinião pública, deve parecer difícil esperar que um filme desses possa ter feito sucesso, mas considerando que “Superman – O Filme”, além de ter dado origem a uma franquia de cinco filmes, sendo que mais um está sendo pré-produzido, e que até hoje é visto na condição de uma das melhores adaptações de HQs para o cinema já realizadas, não há muito o que questionar quanto ao seu mérito.
Muito possivelmente a franquia jamais conseguirá causar um impacto tão impressionante na plateia quanto na ocasião do lançamento deste primeiro longa-metragem, e isso apenas adiciona maior mérito a esta produção do fim dos anos 70.
O que ele trouxe foi uma maior visibilidade ao ainda não descoberto potencial das histórias em quadrinhos para o cinema, e isso muito antes dos últimos blockbusters quadrinhísticos que estiveram em cartaz nas salas de exibição.
Após “Superman – O Filme”, isso era apenas uma questão de tempo.

Quanto vale: Um ingresso e meio.



Superman – O Filme
(Superman)
Direção: Richard Donner
Duração: 143 minutos
Ano de produção: 1978
Gênero: Aventura / Ação

3 comentários:

Fernando Rodrigues disse...

Depois desse filme, durante os anos 80 até tentaram produzir um filme do Spider Man, mas todas as tentativas foram fadadas ao fracasso. Nessa época foi feito também um filme de baixíssimo orçamento do Thor, mas o protagonista era tão diferente do asgardiano que estava mais para Conan do que para o filho de Odin, propriamente dito.
Há inclusive um filme do Capitão América feito no início dos anos 90, que também era de uma pobreza sem precedentes.
Se eu não me engano existiu também um filme do Hulk que seguia os mesmos moldes do seriado protagonizado pelo Lou Ferrigno.
Mesmo assim, esse filme do Super Man, dirigido pelo Donner, durante muito tempo foi o melhor exemplo de filmes de super-herói.

Marcel Ibaldo disse...

Interessante que havia uns intervalos de tempo bem vastos entre um filme que prestasse e outro.
E ainda que os bem-sucedidos tivessem características do tipo "fidelidade às HQs", ou "produção caprichada", a maioria sempre pensava em criar um filme de quadrinhos com o pensamento "me dá uns trocados e eu melhoro essas historinhas das revistinhas, afinal, o público 'inteligente' não vai querer ver algo igual ao que tá nos gibis".

Fracassos recorrentes fazem pensar que eles não estavam assim tão certos...

Guilherme Hollweg disse...

Classicaço e com certeza um dos melhores filmes de quadrinhos de todos os tempos.

Esse era merecido um "remake digital" e ser exibido novamente nos cinemas.